Em minha jornada como SPC (SAFe Program Consultant), rapidamente compreendi que atuar em ambientes com tamanha complexidade quanto o de grandes instituições financeiras exigia mais do que o domínio do framework. Nesse contexto, onde a aversão ao risco é alta e a cadência da mudança tende a ser lenta, o conhecimento técnico: WSJF ou conduzir um PI Planning, era na verdade, apenas o meu “bilhete de entrada” na conversa.
O verdadeiro divisor de águas surgiu quando, durante o meu processo para SPCT, a leitura do livro “O Conselheiro Confiável” provocou uma profunda reflexão de minhas ações. As páginas desse livro me deram a estrutura de que eu precisava para entender a causa raiz: porque, apesar de eu dominar o SAFe, nem sempre era possivel a adesão genuína ou a franqueza necessária dos líderes. Eu estava entregando Credibilidade, mas falhando na Intimidade e sucumbindo ao Foco em Si Mesmo.
Esta resposta estava na Equação da Confiança.
Meu maior aprendizado, e o erro mais comum que vi em minhas ações, estava no Foco em Si Mesmo. No início da minha carreira, minha motivação era provar que o SAFe funcionava e, por extensão, provar que a minha consultoria era valiosa. Isso se manifestava como uma Ansiedade da Ação: eu pulava para a solução (“Faça um WSJF!”) antes de realmente entender a dor do Negócio. O livro me ensinou que esse comportamento não elevava minha Credibilidade; ele apenas aumentava o meu Foco em Si Mesmo, fazendo com que o Cliente hesitasse em apoiar decisões, pois me via como um “vendedor do SAFe”, não um parceiro.
Dicas Práticas para o SPC, RTE e SM no Dia a Dia:
- Transforme a Credibilidade em Consultoria:
- Meu Acerto: Deixei de ser o “professor do SAFe” para ser o “diagnóstico do ART”. Em vez de dizer a um RTE o que fazer, comecei a usar o framework (como as métricas de previsibilidade) para validar objetivamente a dor que ele já sentia.
- Dica Prática: Pare de falar sobre o Princípio SAFe. Fale sobre o problema de negócio. Use o vocabulário do SAFe apenas para estruturar a solução. Sua Credibilidade dispara quando você usa o framework como meio, e não como fim.
- Use a Intimidade para Gerenciar o ROAM (Riscos):
- Meu Aprendizado: Percebi que as retrospectivas do ART (I&A) eram superficiais. O motivo? Baixa Intimidade. Ninguém se sentia seguro para expor falhas graves.
- Dica Prática para o RTE: Antes do I&A, tenha conversas individuais (alta Intimidade) com os Scrum Masters e Product Owners. Use a linguagem do “Foco em Si Mesmo” para incentivá-los a serem honestos: “Não vamos discutir quem errou, mas o que o nosso sistema nos impede de ver. Qual risco você hesitou em levantar no ROAM porque achou que seria julgado?” Apenas quando a Intimidade é alta, os riscos são de fato “Owned” (assumidos), e não apenas “Accepted” (aceitos).
- Confiabilidade: O Coração da Sincronização:
- A Realidade do Banco: Em instituições financeiras, a Confiabilidade é a espinha dorsal. Se a dependência de um time de segurança ou compliance falha, o ART para. Vi inúmeras PI Plannings desmoronarem não por falta de Credibilidade (o PM sabia o que queria), mas por falta de Confiabilidade entre equipes.
- Dica Prática para o SM: Ensine a equipe que Confiabilidade é um valor moral. No Daily Stand-up, use a Equação. Se você prometer algo, e falhar, avalie: “Qual é o impacto no nosso ART Planning Board?” Transforme a falha de entrega em uma falha de confiança relacional.
A ligação final é irrefutável: ao reduzir o Foco em Si Mesmo, nós (SMs, RTEs e SPCs) aplicamos o Princípio #8: Desbloquear a Motivação Intrínseca. Criamos o ambiente onde o framework pode prosperar, porque trocamos o papel de “guarda-costas do processo” pelo papel de “Conselheiro Confiável” que foca 100% no sucesso e na entrega de valor do ART. E essa, para mim, é a verdadeira lição da transformação ágil.
