Grande parte das organizações adapta o SAFe e isso é natural. Além disso, adaptar faz parte da evolução de qualquer sistema. O problema começa quando a adaptação acontece cedo demais e dá origem ao FrankenSAFe, uma distorção do framework criada pela mudança antes do aprendizado. Quando isso ocorre sem dados, sem vivência prática e sem compreensão do sistema, a transformação perde força e passa a caminhar em direção contrária ao que se deseja.

Quero deixar claro que o problema não é a adaptação. O problema é a adaptação precoce, que acontece antes de a organização entender o framework que está tentando ajustar. Essa mudança antecipada, feita sem aprendizado, sem dados e sem experiência real, é o grande problema.

O FrankenSAFe é a criatura mal montada que costuma se voltar contra o criador. Ele nasce da adaptação precoce, quando práticas e papéis são alterados antes de a organização entender como o sistema funciona, criando incoerências que comprometem a própria transformação. Consequentemente, decisões se tornam desalinhadas e o sistema perde consistência.

Quando o FrankenSAFe realmente aparece

O FrankenSAFe não surge quando a empresa evolui seu sistema após experimentar o SAFe de verdade. Pelo contrário, ele aparece quando a organização adapta cedo demais, guiada por pressa, ego, impaciência ou pela crença de que “aqui é diferente” antes de compreender de fato o framework SAFe.

É quando se tenta criar “o nosso jeito” sem ter passado por “o jeito que funciona”. Nesse cenário, a personalização deixa de ser evolução e passa a ser improviso.

Sem essa vivência, as escolhas de adaptação se tornam superficiais. Práticas são alteradas sem critério, papéis perdem clareza e cerimônias são esvaziadas. Como consequência, o sistema/framework se torna frágil, incoerente e incapaz de sustentar a agilidade em escala.

O risco da adaptação precoce

O SAFe foi desenhado como um framework completo, capaz de revelar dependências, tensões organizacionais, gargalos, padrões de decisão e necessidades reais de governança. Tudo isso aparece somente após um período mínimo de vivência. Somente depois dessa observação o ajuste faz sentido.

Quando se adapta antes disso, a organização perde a chance de entender o porquê das práticas. Em consequência disso, decisões voltam a ser centralizadas, a cadência se desfaz, o portfólio se desconecta da estratégia e a previsibilidade desaparece. E aí surge a frase clássica:

“SAFe não funciona aqui.”

Mas o que foi implementado não era SAFe. Era apenas um FrankenSAFe: uma colagem apressada de práticas sem aprendizado validado.

Shu-Ha-Ri: entender antes de adaptar para não criar um FrankenSAFe

Depois de entender como a adaptação precoce desmonta o sistema, vale olhar para um conceito que explica por que isso acontece: o Shu-Ha-Ri, muito presente nas artes marciais e amplamente usado em práticas ágeis. Ele mostra, de forma simples e profunda, por que o FrankenSAFe costuma surgir quando se tenta adaptar cedo demais.

No estágio Shu, o aprendiz segue as regras como foram concebidas. Ele precisa da estrutura completa para criar disciplina, observar padrões e compreender o propósito de cada prática. No SAFe, esse é o momento em que a organização deve experimentar o framework como ele é, com cadência, papéis e cerimônias funcionando juntos.

Quando avança para o Ha, o praticante já entende o porquê das regras e começa a ajustá-las com consciência, sem abandonar os princípios. Da mesma forma, uma organização que viveu ciclos completos, acumulou dados e aprendeu com o sistema pode iniciar ajustes responsáveis, sempre com base em evidências e maturidade.

Somente no Ri a adaptação se torna realmente madura. Aqui, o domínio é tão profundo que a personalização ocorre com fluidez, sem comprometer a integridade do sistema. Nesse estágio, adaptar deixa de ser risco e passa a ser evolução.

Tentar adaptar antes de viver Shu e Ha não é inovação. É pular etapas essenciais. E é exatamente isso que cria o FrankenSAFe. Em resumo, o problema não é adaptar. O problema é adaptar antes de entender.

O Shu-Ha-Ri deixa claro que não existe personalização responsável sem vivência. Primeiro vem a disciplina, depois o entendimento e só então a adaptação. Esse caminho evita distorções, preserva princípios e permite que o SAFe evolua com consistência, abrindo espaço para uma transformação que realmente sustenta valor no longo prazo.

O que se perde quando se adapta cedo demais

Perde-se cadência.
Perde-se foco.
Perde-se credibilidade.
Perde-se colaboradores experientes e patrocinadores, que rapidamente percebem quando a agilidade é apenas fachada.
E, acima de tudo, perde-se a oportunidade de aprender como o framework funciona antes de decidir como ele deveria funcionar.

A ordem correta das coisas

Primeiro seguir.
Depois entender.
E só então adaptar.

Essa sequência cria aprendizado real e sustentado. Por essa razão, inverter a ordem significa perder a essência do SAFe.
Quando isso acontece, o que nasce é o FrankenSAFe: instável, improvisado e incapaz de suportar transformação.

A adaptação madura acontece depois de métricas, observação, experimentação e validação. Assim, ela deixa de ser um risco e passa a ser evolução. Ela é orientada por dados, não por opiniões.

Adaptar do jeito certo amplia valor

As organizações que personalizam bem o SAFe fazem isso porque:

• Viveram o sistema como ele é;
• Mediram impacto;
• Amadureceram papéis;
• Criaram linguagem comum;
• Fortaleceram governança leve;
• Validaram práticas com dados;
• Desenvolveram maturidade antes de decidir o que mudar.

Esse tipo de adaptação não é FrankenSAFe.
É evolução consciente.
É personalização responsável que amplia valor em vez de comprometer o sistema/framework.

A diferença é clara: uma organização adapta porque entendeu e outra adapta porque tem pressa.

Conclusão

Antes de montar o seu próprio framework para escalar o Ágil, existe uma pergunta essencial:

“Estamos adaptando porque aprendemos ou porque ainda não entendemos?”

Se a resposta for a segunda, o risco de criar um FrankenSAFe é grande. Nesses casos, a criatura tende a se voltar contra o criador porque nasceu sem estrutura, sem dados e sem disciplina.

Mas quando a adaptação acontece depois do aprendizado, ela deixa de ser um monstro. Ela passa a ser clareza, evolução e personalização que amplia resultados e fortalece o sistema.

No fim, a verdadeira agilidade não nasce da pressa nem da colagem de métodos. Ela nasce do respeito ao aprendizado, da disciplina de seguir antes de mudar e da coragem de viver o framework antes de personalizá-lo.

Rubinho Mendrona

Rubinho Mendrona é formado em Administração de Empresas e especializado em Marketing Estratégico pela USP, com certificação SAFe POPM. Atua no time de marketing da Adaptworks, referência em SAFe no Brasil e na América Latina. Com foco em Product Marketing e Agile Marketing, dedica-se a integrar práticas ágeis à gestão de produtos e estratégias de marketing digital. Sempre voltado para a transformação e entrega de valor, Rubinho busca converter oportunidades em resultados concretos.

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